"Nelmo Ricardo Martins Dias, nascido aos dezoito dias do mês de setembro de mil novecentos e sessenta e um, aqui mesmo, na serra friburguense.
De nome artístico, Nelmo Ricardo, e Nelminho, para os mais chegados.
Sua arte era única. Sua criação exclusiva. Começou no teatro como todo o jovem idealista e revolucionário, vendo nesta manifestação artística uma forma de modificar o que não lhe agradava no mundo.
Seu despertar foi no GPH (Grupo de Promoção Humana), no Cônego, com o já falecido João Carlos. Ao assistir um ensaio veio o desejo. Porém, Nelmo nunca se fixou a um grupo, pertenceu a inúmeros. Não gostava de aprisionamentos, nem mesmo os artísticos. Prezava a sua liberdade.
Foi também caixa de banco. Não se enquadrou nas normas. Não suportou as 'cobranças da sociedade'. Foi guardião atento nos altos picos das montanhas onde nasceu, das torres invasivas, mas necessárias, das TVs. Sócio de livraria, comidas alternativas, brechó e, finalmente, de um espaço cultural que, infelizmente, não chegou a inaugurar, pois as águas da tragédia de 2011 se interpuseram entre ele e a realização do sonho.
Inventivo, teimoso em suas ideias, imprimiu às ruas da cidade o colorido de seus personagens que, enquanto eram o seu ganha-pão, representavam a personificação da multiplicidade da sua criação. Divertia crianças, adultos e idosos com seus singelos, e quase sempre mudos, personagens. Muitas vezes se emocionava com a receptividade e aceitação da população e relatava, entusiasmado, aos amigos suas experiências emocionais. Também se aborrecia com os que ele chamada de idiotas das ruas, que o provocavam ou interrompiam seu trabalho com palavras ofensivas. Mas foram raros esses momentos de ira.
Foi artista de palco em teatros fechados nos anos 80 e 90. Teve muitas e grandes atuações. Lembro-me de algumas: em “Toda nudez sera castigada” surpreendeu e encantou com seu Herculano; no “Cabaret Valentin” suas mímicas intrigaram; em “Drape e Pau” soltou o verbo; em “Procurando uma história” encarnou o garoto interno que sempre foi. Nos filmes marcou presença em “O rapto das cebolinhas” e “Limpim”. Seu cachorro, no primeiro, e o anjo, no segundo, são a expressão de seu talento. Trabalhou com quase todos os diretores de teatro da cidade.
Foi em 1992, num evento em praça pública para arrecadar alimentos para a Campanha Contra a Fome, lançada pelo Betinho, que descobriu o prazer de brincar e inventar objetos e magia, com as caixas. Vestindo um personagem sem fala, caminhou pela Praça Dermeval Barbosa Moreira abrindo a caixa e fazendo as pessoas olharem dentro. Lá, colado ao fundo, havia, como um pequeno lago, um espelho onde os narcisos transeuntes se miravam e refletiam suas angústias. A partir desta descoberta, nunca mais a abandonou. O papelão, a cola e a tinta, passaram a fazer parte de seu cotidiano. Optou por tornar-se um artista de rua. Performático, como poucos. Quem já não o encontrou, como se fosse um simpático catador, a recolher caixas pelas ruas e a acondiciona-las, pacientemente em sua inseparável bicicleta? Meio de transporte, aliás, no qual percorria quilômetros diuturnamente e do qual muito se orgulhava.
Sua outra 'marca registrada' era o macacão. Vestimenta prática, que ele dizia ser o seu arquivo ambulante. Enchia os diversos bolsos com infindáveis papeizinhos, onde anotava compromissos, telefones, tarefas a cumprir e lembretes para ele mesmo.
Nelmo foi e sempre será grandioso. Generoso com pessoas e animais. Alma pura e coração grande. Deixará saudades entre os seus. Esposa, filha, enteada, irmãos e amigos sentirão a sua ausência por muito tempo, talvez para sempre. Sua lembrança e sua dedicação à arte não se apagará. Figura incomparável de talento inimitável, fará muita falta no cenário da arte friburguense.
Seus amigos e parentes choram a sua partida, e no céu, certamente, os outros artistas amigos aplaudirão a sua chegada.
Seu corpo foi velado na Usina Cultural Energisa no domingo, 27 de janeiro de 2013, e na segunda-feira, 28, numa nublada manhã, sepultado no Cemitério São João Baptista."
Daniela Santi, diretora e amiga há 30 anos


Saudades desta pessoa incrível. Acho que INCRÍVEL já resume muito bem que é Nelmo Ricardo. Verbo no presente sim, porque Nelminho nunca se tornou passado.
ResponderExcluirParabéns pela postagem!O Nelmo foi um grande artista de Nova Friburgo.
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